Tudo é vaidade
As imagens do julgamento de Saddam Hussein, um dos mais tortos que a história do direito internacional poderá produzir, e sua conseqüente execução tão ignóbil quanto os crimes pelos quais o ditador estava sendo julgado, o que lembra o Código de Hamurábi, e põe por terra qualquer princípio civilizatório, ainda estão vivas na retina do mundo inteiro, mas dois fatos que repercutiram ontem mostram que o poder é o maior gerador de cegueira que existe no universo.Ontem, aos olhos do mundo, o presidente Hugo Chávez assumia com pompa e circunstância seu terceiro mandato à frente do governo da Venezuela, e anunciou que o congresso aprovou um mandato por decreto, plenipotenciário, no qual Chávez poderá tomar decisões sem consultas ao parlamento e poderá inclusive mudar as leis do País. O presidente venezuelano sequer esforça-se para esconder o desejo escorrendo pelos cantos da própria boca de ser o novo Fidel Castro, e apoiado pelos petrodólares da economia de seu país já anunciou que implantará o socialismo bolivariano, sabe-se lá o que exatamente isso significa, já que até o presidente Lula mostrou não saber exatamente qual seja seu próprio colorário político-ideológico, de tanto que perdeu o sentido essa discussão sobre socialismo e neoliberalismo, e onde até intelectuais brasileiros outrora combativos agem com absurda leniência frente aos desvios éticos da recente história política, protagonizada por um governo que sempre defenderam, e ainda defendem, e a sujeira põe na conta das "zelite". Pena que essa turma não prestou atenção na lamúria de Salsicha, em vários episódios de Scooby-Doo, em que depois de concluída uma investigação sobre o vilão da história lamentava: “Se pelo menos ele usasse o cérebro para o bem...”
Quem também veio a público ontem para assumir alguma coisa foi o presidente Bush, mas no caso dele assumir que cometeu um erro do tamanho do buraco na camada de ozônio com sua guerrinha particular no Iraque, que se arrasta há três anos com centenas de milhares de vítimas de ambos os lados e lucros recordes da indústria armamentista americana, que deve ter passado o melhor Natal de suas vidas, esses verdadeiros senhores das guerras e das armas. Mas a confissão de Bush não significa necessariamente arrependimento, uma vez que ele solicitou o envio de tropas com mais de 20 mil soldados para o Iraque, além de um incremento de um bilhão de dólares em sua sanha armamentista naquela região do mundo e já ameaça o Irã, mostrando que isso não vai parar nem tão cedo.
Tudo isso me fez lembrar do delicioso livro de José Roberto Torero, “Xadrez, trucos e outras guerras”, onde ele usa como pano de fundo a Guerra do Paraguai para mostrar que as guerras acontecem menos em função da ira e dos confrontos políticos e ideológicos, e mais por conta da vaidade e de egos inflamados. Ah, como seria bom que o cristão Bush e o comunista Chávez refletissem um pouquinho nos ensinamentos do Eclesiastes!


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