Heloísa Helena e eu

Eu estava em Brasília, vinha de Campo Grande e esperava uma conexão para Recife, essas coisas que só a aviação brasileira faz por você, quando ela sentou ao meu lado. Mais franzina que aparenta, bonita, meiga que surpreendeu, a senadora Heloísa Helena sorriu, me deu bom dia, sentou, abriu o jornal e começou a ler. Eu estava cansado, vinha de um trabalho exaustivo no Mato Grosso do Sul, respondi e fiquei sem vontade de puxar um papo, conversar sobre sei lá o quê, dizer que acompanhava seu trabalho no Senado, mas deixei pra lá.
Hoje, quase dois anos depois, o meu caminho e o da agora candidata a presidente do Brasil voltam a se aproximar, já que ela está em Recife, faz campanha, deve passar o dia.
Eu sempre achei Heloísa Helena uma figura combativa, admiro-a, apesar de não votar nela, gostei especialmente da maneira emocionada com que ela apresentou o Projeto Mais Vida no plenário, lendo o texto, belíssimo, da campanha, que contrastava o ato de doar sangue com as atitudes dos co-autores da crucificação de Jesus.
Heloísa Helena parece ter um poder de atração entre os jovens e entre aqueles que querem uma certa revolução, de preferência confrontando as instituições, o poder ao povo, esses slogans que estão na boca dos revolucionários de esquerda desde que existe o marxismo.
Os jovens devem sentir uma certa simpatia por esta mulher combativa, de ares franciscanos, simplicidade em pessoa, que profere até mesmo declarações simples como se fosse um ato revolucionário, algo épico, como se daquelas palavras dependesse o futuro de toda a humanidade.
Não sei porque, mas ao pensar na senadora me vem à mente modelos governamentais de Cuba, ou da China, lugares onde o socialismo domina, mas que não representa necessariamente uma vida melhor do que aquela onde o capitalismo é dominante, maioria hoje.
Heloísa Helena, de repente, me parece vir da mesma raiz de onde surge coisas como a contracultura, Nietszche, filmes como "V de Vingança", onde o herói é um terrorista que joga bombas em orgãos públicos (!).
Eu continuo achando-a simpática, uma pessoa bem-intencionada, que tem uma história que merece respeito, e tudo isso explica que no momento mais de 10% intentem votar em seu nome, mas não sei se suas idéias podem trazer algo de bom para o país, se bem que a esta altura a própria política brasileira padece de algo que mereça um pouco de credibilidade.




